Da Glória ao arrependimento

O dia era normal, como muitos outros de domingo, quando escolho ir à minha praia preferida com minha família e minha inseparável tralha de pesca.

Entre uma brincadeira na areia com as crianças, um gole de cerveja gelada e um papo agradável com a minha esposa, puxar um peixinho da água, fisgado quase que sozinho.

A hora de ir embora já estava chegando, pois com as crianças nunca passo das 11 da manhã. O horário prometia um incremento na pescaria, pois a maré começava a vazar, ainda lentamente. Uma maré muito grande, que quase não nos deixou praia para armarmos nossas cadeiras.

Até alí o saldo era bem positivo. Em pouco mais de 2 horas havia pego várias betaras, alguns pampos galhudos pequenos e muitos canguás. Um dia bem produtivo, mas sem nenhum troféu.

Como despedida, resolvi alterar o que estava pescando e na tentativa de fisgar algo maior, uma arraia, um cação ou até quem sabe um grande pampo, isquei um grande filé de bonito num anzol de maior tamanho, amarrei bem e fiz o arremesso exatamente dentro do segundo canal e para tanto tive que entrar na água até quase o meu pescoço. Satisfeito com o arremesso, fui soltando linha e retornando a minha cadeira, aonde a cerveja me aguardava.

Vara no secretário, molinete regulado e travado, esperava apenas o comando da esposa avisando que chagara a hora de ir para casa. A praia estava bem cheia, com muitos turistas, mas principalmente com caiçaras nativos, que aproveitavam o domingo para vender de tudo aos visitantes e para também tomar seu banho de mar e se divertir.

Meu filho foi quem gritou ao ver minha vara vergada e o molinete soltando linha numa velocidade impressionante. Dei um salto, caindo na areia e meio que engatinhando e tropeçando cheguei até a vara e, bem desajeitado, retirei-a do secretário e apertei um pouco a fricção do molinete. Linha fina, 0,17 mm, não podia forçar muito. O peixe estava fisgado, mas não parava de correr. Com certeza uma arraia. E das grandes.

Percebi o lado para o qual ele estava correndo e felizmente era o lado contrário da onde eu sabia havia um barco afundado que poderia enroscar a linha. Para aquele lado não havia estrutura nenhuma. Briga limpa. Era apenas ter paciência. Comecei a andar na mesma direção da onde o peixe puxava, já com o coração disparado e seguido pelos meus filhos e minha mulher.

Os 400 metros de linha que estavam no meu molinete simplesmente sumiram em pouco tempo, restando apenas o fundinho do carretel. Tantas vezes fui criticado por colocar tanta linha e agora estava finalmente justificado. Percebendo que a linha poderia acabar, fui segurando carretel do molinete com a mão, agindo como um freio., para que a corrida do peixe diminuisse. Mas nada de parar, então me restou correr na direção dele e tentar recuperar pelo menos um pouco da linha perdida até alí na briga.

E aonde eu ia minha família me seguia, agora já acompanhada de dezenas de curiosos. Por onde passava, mais pessoas se juntavam ao grupo e logo era uma multidão correndo para lá e para cá na praia, seguindo o sujeito que estava com a vara na mão.

Aos poucos o peixe veio, devagar, mas sem mostrar a cara. Lembrei então da máquina. Não podia deixar de fazer fotos. Mas a barraca aonde ficou guardada estava muito longe. Minha esposa se prontificou a busca-la enquanto eu continuava a briga e me afastava mais ainda do local.

Não sei ao certo quanto corri e nem quanto tempo isso durou, mas aproveitando algumas ondas, fiz o peixe se aproximar e vi o espetáculo. Um robalão, que seguramente pesava mais de 20 quilos. Um monstro, totalmente cansado, de lado, trazido lentamente até a areia aonde atolou.

Cai ao lado dele completamente cansado. Sem forças sequer para levanta-lo do chão. E nada da minha esposa chegar com a camera. O povo se aglomerou em volta, como fazem quando existe afogamento na praia. Tinha que devolver este herói magnifico para a água rapidamente. Reuni o que me restava de forças e de joelhos, com cuidado segurei o bichão no colo.  Lindo. Quase preto. Um lombo enorme. Também sem forças. Levei-o até a água e deitei-o no fundo, segurando seu rabo e com a outra mão seu abdomem.

Ele não se recuperava, e a multidão em volta o tempo todo.

Depois do que parecia ter sido uma eternidade, o peixe se equilibrou finalmente na posição vertical e nada da minha esposa chegar com a camera para registra-lo. Uma rabada e escapou da minha mão, nadou 10 metros e deitou novamente. Foi instantâneo. Dezenas de pessoas voaram em cima dele, segurando-o com dezenas de mãos. Gritei para que não fizessem isso.

O peixe foi cercado, sem rotas de fuga possíveis, sem que caísse em dezenas de mãos ávidas por pega-lo novamente.

Percebi num relance que se soltasse o peixe iriam pega-lo facilmente, pois estava totalmente cercado de pernas e braços, formando um cercado perfeito, sem chance de escapar.

Ouvi claramente alguns homens dizerem que se eu soltasse o pegariam novamente, pois a natureza não tem dono. Percebi que uma pescaria agradável e heróica podia se tronar uma tragédia, pois claramente estes homens fariam de tudo para evitar que este peixe saísse dali vivo e não me deixariam intervir sem que algo mais grave pudesse acontecer.

Então peguei meu canivete na cintura e rapidamente cortei sua cabeça, matando-o o mais rápido que pude.

Sangue na água e minha esposa chegando com a camera na mão. Não havia mais o que fotografar. Estava segurando mais de 20 quilos de carne e não mais o feroz guerreiro.

Sai da água carregando o peixe e um homem trouxe meu caniço que ficara largado no chão.

Caminhei lentamente de volta até o ponto aonde minha cerveja estava esquentando ao sol, carregando aquele monstro nos braços, seguido um bom tempo pela multidão que foi dispersando devagar, até ficar quase sozinho, pensando que nada disso poderia ter acontecido. Que este valente lutador poderia estar vivo se não tivesse caído na minha linha. Que uma grande desova foi atrapalhada, pois era isso que ele fazia tão próximo da praia com certeza.

Mas como recriminar pessoas que não ganham mais do que 300 reais por mes em média e tinham a sua frente um peixe que facilmente seria vendido por 600? Como querer uma política de preservação quando o povo passa necessidade?

Comemos robalo por muitos dias em casa, com amigos e parentes. Mas o sabor era amargo pra mim.

Até hoje tenho a sensação de que podia ter feito mais por este fantástico exemplar.

Hoje, nem robalo, nem foto, nem vontade de voltar a pescar naquele local.

Celso Moura Pinto

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