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As sandálias do pescador Com a entrada do terral e o friozinho de renguear cusco, Moisés tinha certeza: as tainhas estavam subindo o rio. Moisés, irmão de Jesus, nomes bons para nascer, difíceis de explicar numa vida falida, de muita precisão. Sua propriedade, um rancho de madeira plantado num terreno disputado pela guanxuma e umas poucas galinhas. Poucas, mas, que exigiam cuidado no andar na trilha até o portinho - uma prancha de um metro e meio por três, amarrada sobre bombonas verdes, antes usadas para guardar produtos químicos. Unido a mourões no barranco, o portinho sobe e desce à vontade da maré alimentada pela boca da barra, pertinho dali. Beirando o rio Itapocú, feito de restos de madeira que o próprio rio traz e deixa na barranca, torto e desmilingüido, o rancho de pesca. Antes mesmo de escurecer, Moisés e seu também bíblico irmão - Jesus, colocaram as tralhas na bateira. Dois remos, uma tarrafa de onze palmos, pão de milho e o porrete para matar as tainhas que, embarcadas vivas, fazem um barulho infernal no fundo da embarcação. Ah, é claro, as imprescindíveis sandálias. Ramos, de bem com a vida, fusca azul recém tirado no consórcio, só tinha um senão para estar todas as tardes/noites pescando tainhas no rio Itapocú: não podia usar o alumínio, 17 pés, motor de 25 hp herdado do pai, junto com um pedaço de terra banhado pelo rio. Em época de tainha o silêncio era lei, não se podia usar motor. À noite só se ouvia a batida das tarrafas e as tainhas se debatendo, apanhando de porrete. Silêncio só cortado quando alguém fazia um "cachorro" - tarrafa lançada ao rio nem toda aberta - causando um ruído parecido ao de jogar um cachorro n'agua - daí a risada e gozação geral. Esperto, Ramos inventou um "motor", o Stringari. - Que motor Stringari é esse? pergunta Job, o companheiro de pescaria. - Estringari é o novo chapa que empreguei para trabalhar de ajudante de entrega na 608, daí, fora do expediente, ele vai remar pra nós, bom, heim? Com motor Stringari, escuridão total, fora os tschuas-tchuans, batidas das tarrafas no rio, Ramos só ouvia o plac-plac, e pau-pau vindo da bateira dos messiânicos Moisés e Jesus. Era tainha apanhada e morta ... e muita. Lá se iam então, como procissão: Ramos, Come Galinha, Tié, Leco, Fodoca ... Ao todo umas vinte bateiras rio acima, rio abaixo ... seguindo as batidas vindas da bateira da dupla Moisés e Jesus. O dia nascendo, todos cansados, sem tainha. Só restava encher o saco dos bem-te-vis que atormentavam, empoleirados nas silvas da beira do rio, batendo seus remos nos galhos. Muito esperto, Ramos mudou. Desistiu de usar o seu motor Stringari, cheio de favores se aproximou e conseguiu, finalmente, pescar junto com Moisés e Jesus; meio apertado é certo, mas valia à pena. Depois de umas duas horas tarrafeando sem sucesso, Moisés comandou: - Jesus! Rema pra cima, aproveita que a maré está subindo. Esperaram... - Jesus, agora a maré está baxando, vamo à matança das tainha, Seu Râmo, o sinhô ajuda nóis? Tá de sandáia, tá? - Seguinte, eu uso minhas sandáia e faço de conta que são tainha se debatendo no fundo da bateira, assim ó! Pego com a mão e... plac-plac-plac. O sinhô droba a sandáia é da-lhe porrada, parecendo matá as tainha. Daí, é só esperá; a turma toda sobe o rio com nóis pensando que por aqui tem tainha. Adispois, quando a maré tivé subino é veiz de nóis decê e fazê o memo, lá perto da barra. A turma muda tudo pra lá. - Nóis num pesca sempre. As veiz nóis só se adverte com esse vem-pra-cá e vai-pra-lá dos finos lá da cidade, mas tem que trazer as sandáia, sandáia de pescado (sic). Jorge Luiz Domingues - Joinville, 30 de outubro de 2006 Fato ocorrido no rio Itapocú, divisa dos municípios de Barra Velha e Barra do Sul, Região de influência econômica de Joinville - SC. www.fishpoint.com.br - Todos os direitos reservados® |
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